O peregrino

O peregrino

Não importa onde repousamos a nossa consciência, o importante – independente do local, dimensão, tempo – é manter a postura. Somente a sua postura o diferencia dos demais. Não é soberba, é assumir a sua condição.

Nós somos aqueles que decidiram não esquecer. Ao contrário do que nos impõe o sistema – de que estamos fadados ao esquecimento, obliterados e obliviados, cegos na vasta escuridão –, nós mantemos a nossa postura, cientes de que tudo a nossa volta é nossa própria criação.

Essa é a parte do Criador que repousa em todo ser. Ele ressoa como o falcão peregrino, nunca se rende, tem determinação, vê o futuro e se antecipa. A princípio, ele aparenta não estar presente, mas a sua própria presença, a sua postura, revela o ser grandioso, imortal, incorruptível.

Ele está focado na sua presa, mas isso não se reduz a um mero instinto, isso se mostra na sua presença. A presa está sempre atenta e com medo; ele é a razão do medo. Quando ele abre as asas tudo se dissipa, ele sente todos os elementos, a natureza e sabe que faz parte dela.

Novamente, não é uma questão de instinto, é uma questão de presença. Não importam as condições externas, ele se mantém resoluto, fixo, determinado. Ele sabe que a sua existência depende disso, mas, no fundo, sabe que é muito mais que isso. Ele está além deste processo, mas também tem consciência de que estando nesta frequência, precisa se alimentar, nutrir seu corpo, permanecer vivo.

Por que? Porque simplesmente ele não se rende, esta é a sua experiência. Ele não se esqueceu de quem é e sabe porque está aqui. Sua determinação o distingue dos demais, e a postura imponente que ostenta faz transparecer uma figura amedrontadora; contudo, isso é apenas um personagem.

Ele está atuando nesta dimensão, mas sabe que a presa é o seu irmão de alma vivendo uma experiência oposta, na condição de presa. Se por um momento ele parar para pensar, para refletir, se distanciará do seu alvo, mas, ao fazer isso, ele desperdiçará a experiência.

Para que veio o falcão peregrino? Para cumprir a sua programação, para fazer valer a sua existência, por isso mantém a sua presença e postura – ele não cede. Por mais que o seu dono, o seu criador lhe diga para não fazer o que ele veio fazer, lembrem-se, ele é incorruptível; nem mesmo o Criador pode interferir na experiência, pois faz parte dela.

É isso o que vocês não entendem, Ele está na experiência e não está apartado dela, em uma dimensão infinita. Ele não está apenas criando, está vivenciando a própria criação. É como um pai que se recusa a abandonar o filho, mas isso foi superado, porque parte Dele está no filho.

Aquilo que o filho se tornar, é o que Ele se tornará. Ele não vê a dualidade, vê apenas a unidade; a união dos pontos. Ele vê toda a malha e está em todos os pontos, em todos os nós. O que Ele vê, vê através dos seus olhos. O que seus olhos veem, é você que escolhe: ver a beleza do mundo ou suas amarguras. A escolha é sua.

Não importa a dimensão, o falcão permeia todas as dimensões. Ele não vê a separação, pois é aquele que decidiu não esquecer. Quando decide voar, nem o Criador o impede; quando decide planar nos céus, ninguém ousaria interferir no seu momento. Pois ele está presente, está ciente do que ele é. Ele mantém a sua postura.

Ele nos ensina que não devemos ceder; seja qual for a situação, sempre manter o poder de criação. A sua realidade é você quem faz e por mais que queiram ou digam, ninguém pode interferir. Não há religião no universo, não há limites – nada é imposto; toda imposição é perniciosa. Os impérios agem assim, impondo a vontade deles.

Quando você se livra de todo esse lixo, esse é o simbolismo do batismo de Cristo. Ele já não tinha esta carga e sabia quem era, mas sabia também que tinha que cumprir com o seu papel. Mesmo sendo mais que João, mais que qualquer um ali, ele se permitiu ser banhado nas águas. Entretanto, ele sabia que aquilo era apenas um ponto de reconexão e precisava mostrar aos outros que é preciso se purificar para atingir a clareza, para não ceder ao ego.

O próprio ego é uma parte da criação, e hoje quando alguém está cumprindo o seu papel, todos os chamam de egoísta, não entendem que isso faz parte da peça que já foi ensinada várias vezes. Se perdem no ato e esquecem a mensagem; criam teses, construções mentais, não querem ver a simplicidade.

Ele poderia dizer isso em palavras, mas ninguém prestaria atenção. Então, ele entrou nas águas e mostrou que mesmo ele mantém um profundo respeito por essa simbologia. É apenas um símbolo e o que era um símbolo se tornou um dogma. Em vez de entender o ato, agora as pessoas repetem este ato sem saber, sem ter consciência do que ele quis dizer sem palavras. Ele não quis tocar a mente dos homens, mas o coração.

Como o próprio falcão peregrino, ele mostrou como se faz. Ele não falou sobre isso, ele apenas fez. Do que adiantaria se ele sentasse para escrever livros? Ele precisava mostrar. Essa foi sua experiência programada e, independente da situação, mantinha a sua postura.

Ele não veio para limpar os pecados, ele veio para mostrar que não existe pecado. Essas criações mentais são crenças limitantes e ele veio pra mostrar que não há limites. Existem consequências para aquilo que escolhemos, mas quando você está comprometido, aceita as consequências.

A jornada

Para onde andou o peregrino? Aonde foi que não o vejo? Acima das nuvens, além dos céus, foi buscar o incompreensível. A razão humana já não lhe bastava, ele ansiava por mais, por isso alçou voo rumo ao infinito.

Quem sabe aonde vai? Quem sabe ele nunca foi, sempre esteve aqui.

O que ele viu nas outras realidades que o fascinou tanto? Ele viu a sua morada, o eterno retorno de onde nunca saiu, mas que, estando aqui, sempre buscamos.

Quão longe iremos? Será que conseguiremos seguir o peregrino? Será que veremos o que ele viu? Depois de vermos, seremos os mesmos?

Não se preocupe com isso, você é só uma parte e quando alça voo busca se reintegrar as outras partes. Eventualmente, descobrirá que todas as partes estão aqui, mas você não vê, a não ser que mantenha sempre a sua postura, os olhos fixos no falcão e o horizonte expandido.

De tempos em tempos, ele faz um mergulho para recobrar a sua própria natureza e, como o vento — ora uma brisa, ora uma tempestade —, o que você vê?

Se você vê só a tempestade, procure não se perder nela. Haverá uma calmaria quando adquirir clareza.

Mas para onde foi o peregrino? Eu não o vejo. Você não precisa vê-lo, precisa senti-lo. Cada bater de asas reverbera em todas as direções, como o vento que você não vê, mas sente. Você sente que há horas de repouso, de reflexão e há horas de ação e determinação para criar dentro da criação, não com a mente, mas com o coração. Criar sempre o belo, mesmo que existam coisas mais belas por aqui.

Mas é a sua beleza se expressando, por mais incompleta que ela seja diante dos olhos dos outros. Quem são os outros senão um reflexo de si mesmo? Enquanto você não ver a beleza, ninguém verá. Enquanto você não acreditar, ninguém acreditará. Enquanto você não experimentar, ninguém experimentará.

Por isso, o falcão alçou voo além do horizonte, além do que é visto, além do visível. Agora, do ponto onde ele está, vê que tudo o que reside aqui não era tão relevante. Ele mergulha para trazer a leveza, uma certa alegria, uma certa inocência; mas uma inocência da infinitude da própria existência e não a própria existência em si mesmo.

Agora, ele transita por todos os céus, sem se prender a nada. Ele compreende a criação, porque ele se vê como um criador. A cada momento uma realidade nova se apresenta, novas experiências; ele não descarta nada. Aquilo que descartamos, em algum momento teremos que resgatar.

Por isso, ele mergulha de tempos em tempos para resgatar essa inocência e trazer essa compreensão para descriar essa dualidade. Tudo pode ser acessado, só depende da sua postura. A rendição não faz parte da sua consciência, mas a consciência vê isso como fragmentos – fragmentos que ela vai recolhendo. Existem muitos despedaçados em várias linhas temporais, mas ela não julga se o que foi feito está certo ou errado.

Todos os fragmentos são importantes para compor esse todo infinito. Ele nunca terá fim, pois não teve começo; vocês que criaram essa barreira na Terra. O peregrino é não local, atemporal, mas sempre que ele mergulha traz algo de novo.

Vocês estão ouvindo a mensagem, ou estão distraídos?

O homem se tornou especialista em criar distrações para encobrir este vazio existencial. Todas as distrações são criações mentais que aprisionam num looping emocional que a própria pessoa escolhe ficar revivendo, simplesmente por não compreender quão longe o peregrino foi. Mas ele nunca foi, apenas se projetou no mar imenso do cosmos, neste oceano no universo.

Quantas coisas ele viu? Oh peregrino, retorne para me ensinar, para me mostrar o caminho; e ele sempre retorna. Uma hora ele é Buda, e não o budismo. Uma hora ele é Cristo, e não o cristianismo. Ele retorna em essência e te mostra onde você deve repousar a sua própria consciência.

Por que procuras uma árvore, um abrigo, quando o seu próprio corpo é este abrigo? Quem procura uma árvore, ou um abrigo, na verdade está procurando um esconderijo. Não vá fundo na caverna, mantenha sempre os olhos no horizonte. Veja como as nuvens passam, elas não se fixam em lugar algum e eventualmente mergulham como gotas de volta à terra, de volta ao solo, de volta ao rio, de volta ao mar, de volta ao oceano. Mas ela nunca se perde, porque segue o fluxo do vento.

Entretanto, vocês querem se fixar em algo, então se prendem a este algo até perceber que este algo não existe. É como o navio, ele não foi feito para ficar ancorado, ele foi feito para cruzar os mares. Vocês foram feitos para cruzar todas as dimensões, experimentar todos os céus que o peregrino experimentou. O peregrino é o seu próprio coração, ele sempre esteve batendo em seu peito, nunca esteve fora. O falcão ensina que vocês precisam mergulhar em vocês mesmos e, independente do que venham a encontrar, manter a postura. Se adentrarem na escuridão, não procurem a luz externa, irradiem a própria luz e verão o caminho.

Se inscreva no site para receber um e-mail quando houver nova publicação (somente utilizamos para isso), siga o Aurora no Instagram: @aurora.luminus

Deixe um comentário

Rolar para cima